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Duodécima entrega / Suplemento / página 4
Poemas de Maria Esther Maciel

As idades de Zenóbia

1

 

Aos dezoito anos, Zenóbia tinha olhos ávidos e não usava óculos. Os cabelos, de um preto instável, pendiam em breves ondas sobre os ombros. Seu corpo magro lhe impunha uma fragilidade que não tinha. Sorria sempre como se escondesse a face sob as sombras.

 

2

 

Aos trinta e dois anos, Zenóbia tinha olhos óbvios e ainda não usava óculos. As maçãs do rosto, de um moreno meio rubro, quase que encobriam o nariz miúdo. Os cabelos, reclusos. Uma linha – quase ruga – trazia à testa um ar de austera brandura. Mas nenhuma dureza no conjunto, nenhum escuro.

 

3

 

Aos quarenta anos, Zenóbia tinha olhos sóbrios e passou a usar óculos com aros de tartaruga. Os cabelos, curtos. O risco na testa, agora um sulco. Seu vulto era raro. O sorriso esquivo:  seu ponto de fuga. Uma incerta elegância a tomava, quase absurda.

 

4

 

Aos cinqüenta e oito anos, Zenóbia tinha olhos sólidos, sob os óculos de lentes turvas.  No susto da idade aprendeu que ainda era cedo e quis experimentar tudo. Nos cabelos cinza, nenhum sinal de pejo. Imune ao peso do mundo, ela parecia não ter culpa ou medo.

 

5

 

Aos setenta e quatro anos, Zenóbia tinha olhos estóicos por detrás dos óculos de hastes curvas. Trazia o cabelo de nuvem rente à nuca. E apesar do luto, não perdia o lume. De tudo, mesmo das coisas soturnas, sabia extrair o sumo. Sua vida era o resumo de seu nome. Todos diziam que não morreria nunca.

 

6

 

Aos oitenta e dois anos, Zenóbia parece ter setenta e quatro. Os olhos, sob as lentes sem aro, estão ilágrimes. Os cabelos, ralos, de um branco insone. Já não há dor ou noite para a sua alma, é claro. Na aura da idade, já sabe quase tudo. E todos já pensam que ela é um milagre. Ou um sonho.

Mirabilias e Boninas

1

 

Plantas de raízes drásticas eram cultivadas por Zenóbia em 1976. Eram doze as espécies que cresciam no jardim estranho que criara em sua nova casa. Delas cuidava como se fossem uma dádiva, uma beleza ideal ou seu nada.

 

2

 

Tanta dor teve Zenóbia quando seu primeiro cão morreu que escreveu cem vezes o nome dele no chão do quarto. Eram quatro para as onze quando completou o quadro. Foi dormir quase sem culpa ou cansaço. Sonhou com um pássaro sem asa.

 

3

 

Em 1987, Zenóbia conheceu na rua uma mulher que vendia palavras. Eram todas inventadas. Encantou-se com “ilágrime”. Comprou-a, sem alarde. Porém, mais tarde, soube que essa era uma palavra roubada.

 

4

 

Alicia Mirabilis foi o nome que Zenóbia usou quando publicou o seu livro sobre os milagres de Santa Clara. Já ao escrever sobre Tereza d´Ávila, escolheu o nome Notylia. Descobriu-o quando pesquisava orquídeas numa ilha que inventou no dia de sua maior alegria.

(Los poemas de esta autora continúan en la página siguiente)