DIGO DE TI...
Digo de ti búzios desertos – ocos não,
largos, prenhes, povoados.
Olho ora fixo a tua mão
e ao pé de ti os deuses são sentados.
Digo de
ti palavras labiais,
digo de ti as extremas vogais.
Digo e procedo: a ponte estrela
onde se habita e passa
é una e mesma; mesmo
diferente, é ela
que nos traz e nos leva, nos revela
e funda em Graça.
Abres os braços, livres ou intensos,
e não é só a mim que
tu recebes:
abrigas lentas luzes, ventos densos,
distantes calmas, costas, limos, neves…
Assim os búzios: quando os temos
na mão, rugosos
e cantantes,
quem sabe se os sabemos
hoje, depois ou antes?
(De Segundo e terceiro livros de Lapinova)
NAS FOLHAS...
Pienso que las palabras esenciales
que me expresan están en esas hojas
que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Jorge Luis Borges
Nas folhas, nas palavras escritas,
nas letras perfiladas, no que nunca li,
mas também no que dizes
apressadamente
como
quem tapa uma cova,
mas também no gato a dormir
no alto do muro,
mas também ao roçagar das roupas,
no amor que outros fazem,
nos olhos
abertos e bem fitos,
mas também nos ventos insalubres
e na página em branco
diante dos meus pés,
mas também na mão apertada
anormalmente
quente
e na frase esgueirada entre duas portas,
mas também no verde intenso das urtigas
e na sobrancelha lisa,
mas também no túmulo das
intenções,
nos futuríveis densos
e nos passos inalteráveis,
eis-me conjugado,
eis-me conjugado como um verbo.
(De Horácio e Coriáceo)
ONDE FOSTE...?
Onde foste ao bater das quatro horas
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e
com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas
não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de
antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se
já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim,
a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos – e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro
horas.
Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo,
a que vieste?
(De Horácio e Coriáceo)
16
De neve nada sei, de sol também,
de milhares de sossegos acordados,
da subida do teu rosto atrás dos ombros,
da mão ardente, da vista
da sacada
nada sei.
Ponho palavras como coisas feitas:
só entre elas, enquanto jogam, leves,
seu rodado sem cor nem qualidades,
minha ciência
existe, e já não minha,
ou só tão minha como tua e delas,
ar entre os dedos, sumo de verdades.
(De O aparelho circulatório)
TUA PALAVRA É LONGE
Tua palavra é longe
como de longe vejo
a luz solar que esconde
as ramas do desejo.
Mais de mim que de ti
minha palavra é longe:
roço
o bronze daqui
e é mais além que tange.
Serás tão perto dela
qual eu da luz, a tua?
Termos a mesma pele
dá-nos calor de lua.
Que
é calor de relento
entre o dia e o dia,
sabor de brando invento,
amor-telegrafia.
(De Horácio e Coriáceo)