DECIR DEL AGUA / Segundo ciclo / Cuarta entrega / Octubre de 2007
SUPLEMENTO / Página 2
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VISIÓN DE PORTUGAL: SEIS POETAS / Textos en portugués (continuación)
Pedro Tamen

DIGO DE TI...

Digo de ti búzios desertos – ocos não,

largos, prenhes, povoados.

Olho ora fixo a tua mão

e ao pé de ti os deuses são sentados.

Digo de ti palavras labiais,

digo de ti as extremas vogais.

 

Digo e procedo: a ponte estrela

onde se habita e passa

é una e mesma; mesmo diferente, é ela

que nos traz e nos leva, nos revela

e funda em Graça.

 

Abres os braços, livres ou intensos,

e não é só a mim que tu recebes:

abrigas lentas luzes, ventos densos,

distantes calmas, costas, limos, neves…

Assim os búzios: quando os temos

na mão, rugosos e cantantes,

quem sabe se os sabemos

hoje, depois ou antes?

 

           (De Segundo e terceiro livros de Lapinova)

NAS FOLHAS...

Pienso que las palabras esenciales

que me expresan están en esas hojas

que no saben quién soy, no en las que he escrito.

          Jorge Luis Borges

 

 

Nas folhas, nas palavras escritas,

nas letras perfiladas, no que nunca li,

mas também no que dizes

apressadamente

como quem tapa uma cova,

mas também no gato a dormir

no alto do muro,

mas também ao roçagar das roupas,

no amor que outros fazem,

nos olhos abertos e bem fitos,

mas também nos ventos insalubres

e na página em branco

diante dos meus pés,

mas também na mão apertada

anormalmente quente

e na frase esgueirada entre duas portas,

mas também no verde intenso das urtigas

e na sobrancelha lisa,

mas também no túmulo das intenções,

nos futuríveis densos

e nos passos inalteráveis,

 

eis-me conjugado,

eis-me conjugado como um verbo.

 

                       (De Horácio e Coriáceo)

ONDE FOSTE...?

Onde foste ao bater das quatro horas

e, antes, quem eras tu, se eras?

Amigo ou inimigo, posso falar-te agora

sentado à minha frente e com os ombros

vergados ao peso da caneta?

Falo-te sobre a cabeça baixa

e vejo para além de ti, no horizonte,

teus riscos e passadas;

mas não sei onde foste, nem se eras.

Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,

fazendo gestos largos ou só um leve aceno;

dizes palavras antigas,

de antes das quatro horas,

e nada sei de ti que tu me digas

dessa cabeça surda.

Não te pergunto pela verdade,

que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;

sequer se amaste ou amas

misteriosamente

uma mulher, um peixe, uma papoila.

Não quero essa mudez de condolências

a mim, a ti, ou só à terra

que tu e eu pisamos – e comemos.

Pergunto simplesmente se tu eras,

quem eras, e onde foste

depois que se fizeram quatro horas.

 

Será que não tens olhos? Não tos vejo.

De longe em longe

agitas a cabeça, mas talvez seja engano.

Palavra, não te entendo.

Amigo, a que vieste?

 

                       (De Horácio e Coriáceo)

16

De neve nada sei, de sol também,

de milhares de sossegos acordados,

da subida do teu rosto atrás dos ombros,

da mão ardente, da vista da sacada

nada sei.

Ponho palavras como coisas feitas:

só entre elas, enquanto jogam, leves,

seu rodado sem cor nem qualidades,

minha ciência existe, e já não minha,

ou só tão minha como tua e delas,

ar entre os dedos, sumo de verdades.

 

                       (De O aparelho circulatório)

 

TUA PALAVRA É LONGE

Tua palavra é longe

como de longe vejo

a luz solar que esconde

as ramas do desejo.

 

Mais de mim que de ti

minha palavra é longe:

roço o bronze daqui

e é mais além que tange.

 

Serás tão perto dela

qual eu da luz, a tua?

Termos a mesma pele

dá-nos calor de lua.

 

Que é calor de relento

entre o dia e o dia,

sabor de brando invento,

amor-telegrafia.

 

                         (De Horácio e Coriáceo)